Sebrae e Feamepe questionam se vale a pena contratar temporários ou empréstimoThatiana Pimentel // Especial para o Diario thatiana.pimentel@gmail.com
Bertrand Gourgue, diretor da Síntese - pequena empresa de compras e consultoria hospitalar - passou um grande sufoco no início do ano. Como precisava de crédito para lançar um portal de comércio on-line, visitou vários bancos em busca de financiamento, mas não conseguiu nenhum. A solução foi abrir o negócio para um sócio e investir dinheiro próprio, tanto na ferramenta, quanto nas contratações necessárias para essa nova etapa de sua empresa. Gourgue obteve sucesso e, além de conseguir um financiador, já tem mais de 40 clientes no portal. O êxito, porém, não afasta o medo de um mercado difícil para o setor de micro e pequenas empresas após o estouro da crise financeira americana. "Se precisarmos de um novo financiamento será praticamente impossível conseguir créditos no bancos, que pedem garantias irreais, ou arranjar um outro sócio. Ninguém vai querer se arriscar num momento de recessão", afirmou Bertrand.A apreensão do empreendedor, apesar de compreensível, é prematura na opinião de Murilo Guerra, superintendente do Sebrae de Pernambuco. "A crise, se chegar ao Brasil, vai atingir primeiramente as grandes empresas. Os pequenos e médios não precisam se preocupar. Existe, sim, crédito nos bancos e novas linhas de financiamento devem aparecer para o setor ainda este ano", garantiu Guerra. Tarcísio Silva, presidente da Federação das Associações das Microempresas e Empresas de Pequeno Porte (Feamepe) aconselha, porém, que os microempresários tenham mais cautela antes das contratações do final do ano. "Sabemos que as pequenas empresas têm grande dificuldade de estoque e podem ter problemas, principalmente com a alta do dólar", avisou. Ele ressaltou que a categoria já enviou uma proposta de nova linha de crédito para aprovação do BNDES. "Pedimos a criação do cartão BNDES, com liberação de até R$ 250 mil para capital de giro das pequenas empresas", diz. Breno Santana, um dos sócios da Baker Tilly Brasil - empresa de consultoria e auditoria - tem uma opinião menos positiva do cenário das linhas de crédito, especificamente em Pernambuco. "Cerca de 60% das pequenas e médias empresas do nosso estado trabalham com serviço e já têm grandes dificuldades na hora de conseguir crédito nos bancos. Com a crise é obvio que esses obstáculos ficarão ainda maiores, com juros altos, prazos curtos e carência zero. O que nós questionamos é porque o governo federal não destina um quantia de dinheiro para o setor como já está fazendo para a agricultura e para as empresas que exportam", comentou o consultor. Ele também é categórico ao afirmar que os micro, pequenos e médios empresários devem reduzir o número de vagas para empregos temporários nos próximos meses, uma vez que não conseguirão aumentar os estoques com facilidade. "O que vai existir é muito potencial de venda, mas poucos produtos. Ainda não existem boas possibilidades de crédito para capital de giro".O BNDES disponibiliza três tipos de crédito para micro, pequenas e médias empresas. O único, porém, que empresta dinheiro para uso em capital de giro é o BNDES automático, linha que concede financiamentos em até R$ 10 milhões por cliente. O dinheiro deve ser usado para projetos de investimentos na abertura, ampliação e modernização de um negócio, incluindo a aquisição de máquinas e equipamentos novos, além do capital de giro associado. Já o Banco do Nordeste tem uma linha de crédito especial para atividades não relacionadas à área rural que pode ser usada até 100% para capital de giro associado nas microempresas, 50% nas pequenas e 30% nas médias.